Por outro lado, lembro bem - ainda brincamos com esse assunto - quando preparava o tal bife à cavalo. Seus olhos brilhavam e os nossos (meu e de meus irmãos) também. Talvez por ser uma situação insólita ver o pai cozinhando, talvez por representar os sábados e domingos. Tamanha era a loucura da cena que não lembro dele ao pé do fogão, as memórias ficaram no prato e em suas expressões.
Três crianças sentadas esperando o almoço aterrizar na mesa (a Thaizinha ainda era uma idéia). As implicâncias, o garfo que caia, os tapas na orelha. Mas era só o barulho da cozinha cessar que o silêncio tomava conta da cidade, da nossa cidade. Aquele bife mal passado, aquela gordura indecorosa e o ovo, estrelado, estatelado, cobrindo tudo, era o melhor motivo para ficarmos quietos.
Mas melhor que a comida era a cara de expectativa do cozinheiro. Nunca se sabe o que vem de uma criança, ainda mais quando se está competindo com a amada cozinha materna do dia-a-dia. As mãos deixavam os pratos na mesa e os olhos fixavam na gente, como quem espera um sorriso ou um tapa na mesa. A tensão (do pai) só passava quando invariavelmente um de nós estreava o segundo prato, o que sempre acontecia. E a pergunta retórica de pura satisfação, Gostou?, marcava aquela cozinha.
Lembrei disso, pois há um mês preparei um peixe para a família da minha mulher que veio nos visitar. Comprei os dourados, preparei e servi. Naquele momento em que ainda de pé esperava algum palavrão ou um sorriso, lembrei do bife à cavalo e entendi o que acontecia há 15 anos atrás.
Evidentemente, como manda a tradição da nossa cidade, eu fui o primeiro a repetir.

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