segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O Bife à cavalo (memórias 256)

Tem caras e gestos que só deciframos depois de décadas passadas. Essa história conta um destes casos. Papai sempre foi um batedor de pratos profissional, mas nunca foi de cozinha. Não lembro de vê-lo cortando uma cebola ou escolhendo algum tempero.

Por outro lado, lembro bem - ainda brincamos com esse assunto - quando preparava o tal bife à cavalo. Seus olhos brilhavam e os nossos (meu e de meus irmãos) também. Talvez por ser uma situação insólita ver o pai cozinhando, talvez por representar os sábados e domingos. Tamanha era a loucura da cena que não lembro dele ao pé do fogão, as memórias ficaram no prato e em suas expressões.

Três crianças sentadas esperando o almoço aterrizar na mesa (a Thaizinha ainda era uma idéia). As implicâncias, o garfo que caia, os tapas na orelha. Mas era só o barulho da cozinha cessar que o silêncio tomava conta da cidade, da nossa cidade. Aquele bife mal passado, aquela gordura indecorosa e o ovo, estrelado, estatelado, cobrindo tudo, era o melhor motivo para ficarmos quietos.

Mas melhor que a comida era a cara de expectativa do cozinheiro. Nunca se sabe o que vem de uma criança, ainda mais quando se está competindo com a amada cozinha materna do dia-a-dia. As mãos deixavam os pratos na mesa e os olhos fixavam na gente, como quem espera um sorriso ou um tapa na mesa. A tensão (do pai) só passava quando invariavelmente um de nós estreava o segundo prato, o que sempre acontecia. E a pergunta retórica de pura satisfação, Gostou?, marcava aquela cozinha.

Lembrei disso, pois há um mês preparei um peixe para a família da minha mulher que veio nos visitar. Comprei os dourados, preparei e servi. Naquele momento em que ainda de pé esperava algum palavrão ou um sorriso, lembrei do bife à cavalo e entendi o que acontecia há 15 anos atrás.

Evidentemente, como manda a tradição da nossa cidade, eu fui o primeiro a repetir. Stumble Upon Toolbar

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